David Haddad defende um Centro de Vitória mais habitado, seguro e valorizado

David Haddad defende um Centro de Vitória mais habitado, seguro e valorizado

Por Arnóbio Manso Paganotto

CENTRO DE VITÓRIA:

David, para quem ainda não o conhece, quem é você e o que o motivou a disputar uma vaga no Conselho Municipal de Política Urbana representando a Região Administrativa 1?

DAVID: Me chamo David Haddad. Sou advogado, especialista em Direito da Administração Pública e Direito Imobiliário, e também sou sócio da imobiliária Dois Curadoria, localizada no Centro de Vitória. Minha família é original do Centro de Vitória e, recentemente, voltei a morar no bairro, no Edifício Açores. Essa vivência, aliada à minha atuação profissional na região, me permite conhecer de perto os desafios e as potencialidades do Centro.

O que me motivou a disputar a vaga foi a luta que temos travado há mais ou menos 1 ano pela regularização dos imóveis localizados na 1a Zona do Registro de Imóveis de Vitória. Tive a chance de, nesse meio tempo, conhecer várias realidades, dialogar com muitas pessoas e ajudar na resolução de problemas reais e isso me motivou a querer continuar ajudando da forma que eu puder. Além disso, como morador do bairro também e desejo ver ele cada vez melhor.

CENTRO DE VITÓRIA:

Você atua profissionalmente no Centro de Vitória. Como essa vivência diária contribui para entender os problemas reais da região?

DAVID: Ajuda porque eu lido no dia a dia com problemas das pessoas. A gente sabe dos problemas que fazem as pessoas saírem do bairro e procurarem outro lugar pra morar. Sabemos também o que motiva as pessoas a virem morar no bairro. Estamos na linha de frente, no diálogo com o morador todos os dias e ouvindo diretamente dele os pontos que precisam de atenção.

CENTRO DE VITÓRIA:

Sua formação reúne Direito, Administração Pública, mercado imobiliário e avaliação de imóveis. Como esse conhecimento técnico pode ajudar nas decisões do Conselho?

DAVID: O conhecimento e a experiência com o direito me ajudam a fazer uma análise tecnica da legislação, do que vai ser discutido. Sem compreender o texto de forma tecnica, não tem como dialogar. Se não tem como dialogar, não tem como defender as coisas que a região precisa. Já o conhecimento imobiliário me ajuda justamente pelo fato de que eu entendo quais são as alterações mais importantes e que vão beneficiar diretamente o morador, que vão facilitar a regularização e a valorização do seu imóvel.

CENTRO DE VITÓRIA:

O Centro de Vitória enfrenta desafios históricos, como imóveis vazios, segurança, mobilidade e preservação do patrimônio. Qual deve ser a prioridade número um?

DAVID: Todas essas questões estão interligadas, não tem como ter uma prioridade. Se você diminui a quantidade de imóveis vazios, você aumenta a segurança. Se você melhora a segurança, você melhora a mobilidade, porque o cara ou a moça que tinha medo de sair de bicicleta, de moto, de bike elétrica, passa a não ter mais medo. E a preservação do patrimônio histórico precisa acompanhar tudo isso de perto, porque ela traz o encanto pro bairro. E as pessoas vem dos outros bairros pra ver esse encanto. E com mais gente, novamente, o bairro se torna mais seguro. Ou seja, é tudo interligado.

CENTRO DE VITÓRIA:

Muita gente fala em revitalização. Na sua visão, o que significa revitalizar o Centro sem descaracterizar sua história e identidade?

DAVID: O termo, sinceramente, é o de menos. Revitalizar não é legal porque parece que não tem vida. Tem muita vida, o Centro é maravilhoso, assim como o Parque Moscoso também e os outros bairros da região, cada um com seu charme. Mas eu entendo que é preciso sim que o Conselho atue para que o Centro tenha espaço livre pra continuar avançando. O Centro não é um museu que as pessoas visitam e vão embora.

Temos a oportunidade de imaginar uma região central que preserve a sua história, seus espaços de arte e cultura erudita e popular, mas que também traga mais moradores, recupere seus espaços vazios, reforme seus edifícios debilitados e aproveite de verdade seus terrenos. A região precisa de mais gente nas ruas, de adensamento, de equipamentos, e não de ser apenas um espaço onde as pessoas trabalham e vão embora.

Ou visitam uma exposição e vão embora. Precisamos de novos moradores. Gente traz segurança, traz vida, cultura e comércio. Pra isso, precisamos do poder público e do poder privado em sintonia, e o conselho precisa trabalhar pra esse alinhamento ocorra e seja fundamentado pela nova legislação.

CENTRO DE VITÓRIA:

Como você pretende equilibrar os interesses dos moradores, comerciantes, empresários e do poder público?

DAVID:  Dialogando, ouvindo todo mundo, não tendo birra com absolutamente ninguém. Acredito que quando as pessoas se escutam com respeito e boa intenção, é possível encontrar caminhos que atendem a grande maioria das pessoas bem intencionadas. Não sou político e não tenho pretensão de ser, então estou aberto a todas as pessoas, sem distinção. O meu ponto de vista é e será o do morador do Centro que quer ver o bairro cada dia melhor, mais seguro e com mais qualidade de vida. Precisamos também olhar para outros lugares que conseguiram fazer com sucesso o que a gente quer fazer e aprender com esses exemplos.

CENTRO DE VITÓRIA:

O que você considera que falta hoje na representação da Região Administrativa 1 dentro do Conselho?

DAVID:  Não gosto de falar do que falta. Preciso pensar naquilo que posso agregar. Cada um tem um perfil e o meu perfil é de uma pessoa que gosta de tomar decisões técnicas, após bastante dialogo e estudo, e de estudar experiências que funcionaram em outros locais, se elas já existirem. Mas, acredito que meu ponto forte seja justamente o diálogo e a capacidade de ouvir sem julgamentos e entender que todos tem um pouco a agregar.

CENTRO DE VITÓRIA:

Caso seja eleito, como será sua relação com os moradores?

DAVID:  A mesma que tenho hoje. Aberto, disposto e bem intencionado.

CENTRO DE VITÓRIA:

Pretende realizar reuniões periódicas e prestar contas do mandato?

DAVID:  Com certeza, mas hoje com a popularização do acesso a internet, acredito que esse tipo de comunicação também precise ocorrer de forma digital, até pra podermos alcançar mais pessoas, que nem sempre poderão estar presentes em uma reunião presencial. As pessoas aqui são muito trabalhadoras e nem tem muitas vezes tempo de ir em reuniões de condomínio, quem dirá de conselho. Não quero limitar esse acesso a informação, então procuro também investir nessa comunicação através de plataformas digitais, textos e vídeos informativos que podem ser compartilhados em grupos e assim por diante. O importante é todos conseguirem acomapanhar.

CENTRO DE VITÓRIA:

Quais são suas principais propostas para incentivar mais pessoas a morar e investir no Centro de Vitória?

DAVID:  Não é preciso fazer muita coisa pra isso, sinceramente. Como empresário, a procura que tenho hoje na imobiliária já é gigante, muito maior que a oferta do bairro. Hoje o que o Centro precisa é de exposição correta. Não esse noticiário que só mostra violência e edifício abandonado, porque isso não traduz a realidade do bairro. Isso é exceção, apesar de ser sim um problema existente. Mas precisamos mostrar mais a qualidade de vida que tem o bairro, as opções culturais, o mercado consumidor que deseja uma gama maior de opções. Aqui tem tudo e isso é muito pouco divulgado na mídia tradicional.

CENTRO DE VITÓRIA:

O patrimônio histórico é um dos maiores ativos da região. Como conciliar preservação com desenvolvimento econômico?

DAVID:  Essa controvérsia não existe. Só quem acha que ela existe é quem não entende nada de desenvolvimento econômico. Atividade econômica em nada tem a ver com a demolição de patrimônio histórico. Temos vários exemplos no Brasil e no mundo que possuem centros vivos, explorando muito bem economicamente seu patrimônio histórico. Ninguém fala que a Europa, com seus centros históricos de 1000 anos, não tem desenvolvimento econômico. Temos que entender também a vocação das coisas. A região central não é a Enseada do Suá e não tem porque querer ser. Nem a Praia do Canto, até porque ela oferece coisas que esses bairros não oferecem: uma história de 500 anos de idade. Mas, por outro lado, nem tudo aqui é patrimônio histórico, nem tudo tem valor arquitetônico e de memória. Temos que tomar cuidado pra não virarmos um museu a céu aberto. Eu to longe de defender isso e o morador o bairro também não quer isso. Até porque nós temos nessa região 1 bairros de todos os jeitos e formatos, não temos somente o Centro e o Parque Moscoso. Tem lugar onde cabe pensarmos em novas construções, mas tem locais onde o mais adequado é pensar no retrofit (recuperação dos edifícios). Tem local onde cabe moradia popular e tem local onde vai ter uma atuação do ente privado focado no novo morador. É uma região muito diversa em quem cabem vários tipo de exploração.

 

CENTRO DE VITÓRIA:

O Centro também abriga uma população em situação de vulnerabilidade. Como essa realidade deve ser tratada dentro das políticas urbanas?

DAVID:  Com muita atenção e sensibilidade. É algo que o bairro precisa endereçar pra ontem. Na verdade, não apenas a pessoa em situação de vulnerabilidade, tem também o dependente químico e é importante saber separar as duas coisas, porque um é um problema de habitação e o outro é problema de saúde pública. Acredito que o primeiro caso seja algo que precise ser abordado diretamente pelo conselho, principalmente atuando com a prefeitura no mapeamento e indicação de quais edifícios poderiam ser ocupados com moradia popular, de quais medidas podem ser tomadas, de quais locais devem ser priorizados e de quem está de fato sendo beneficiado com aquelas medidas. Sabemos que existe uma demanda nesse sentido no bairro e isso precisa ser analisado, caso a caso, porque definitivamente não é simples. Mas, certamente, precisa ser estudada uma forma, humana e fundamentada, de reposicionar essas pessoas porque isso é algo que incomoda demais o morador do bairro, o pequeno comerciante, o visitante. E eu entendo que o direito de todos deve ser preservado.

CENTRO DE VITÓRIA:

Você acredita que o Conselho pode realmente influenciar as decisões da Prefeitura ou ele precisa ser mais fortalecido?

DAVID: Acredito que o fortalecimento dele vai depender de como os conselheiros vão se portar. O poder está no povo, não no conselho, que é apenas um orgão representativo. Se os conselheiros fizerem bem seu trabalho, escutarem as pessoas e prestarem conta do que estão fazendo pra ajudar sua região, a população vai fortalecer o conselho e a prefeitura certamente vai respeitar e reconhecer isso. Se não fizer, a tendência é que perca força, o que seria uma pena pra cidade.

CENTRO DE VITÓRIA:

Qual será sua postura quando discordar de projetos apresentados pelo poder público?

DAVID: Defender fortemente a posição da região de forma fundamentada. Dialogar, procurar caminhos do meio que atendam a todos. Tentar entender a decisão do poder público, que também precisa trazer seus fundamentos. Se fizer sentido e for bom pra região de fato, procurar traduzir esses benefícios também de forma mais simples para que os moradores também procurem entender aquele benefício. Mas, o mais importante, é levar ao poder público a opinião do cidadão comum para ter a certeza de que aquilo será observado na hora da tomada de decisão. Tenho absoluta certeza de que com bom senso e boa intenção da pra alcançar bons resultados, até porque todos desejam o bem da cidade e sua melhora.