Esplanada Capixaba: como Vitória criou a “passarela do samba” ao avançar sobre o mar

Esplanada Capixaba: como Vitória criou a “passarela do samba” ao avançar sobre o mar
Obra de aterro para construção da Esplanada Capixaba. Década de 1940

Quem hoje atravessa a Beira-Mar no meio da multidão de blocos, trios e foliões talvez não se dê conta de que aquele chão, por décadas, foi mar. A Esplanada Capixaba, grande aterro concluído em 1955, não apenas redesenhou o Centro de Vitória como acabou, sem que seus idealizadores imaginassem, criando a principal passarela do Carnaval de rua da capital capixaba.

Antes da expansão urbana, o mar chegava aos fundos do Theatro Glória e margeava áreas próximas ao antigo Mercado da Capixaba e à região onde hoje funciona a Casa Porto das Artes. A cidade crescia comprimida entre morros e marés. Os alagamentos eram frequentes e a malha urbana, limitada. A resposta dos governos, desde o início do século XX, foi avançar sobre a água.

O primeiro movimento estruturante acontece nos anos 1920, com Florentino Avidos, que amplia a linha de terra e marca simbolicamente a “conquista” da orla com a construção do Mercado da Capixaba. Mas é na década de 1950, com Jones dos Santos Neves, que a operação ganha escala urbana e ambição estratégica. O Plano de Valorização Econômica projeta um grande aterro, com cerca de 96 mil metros quadrados tomados ao mar, criando uma nova frente edificável para a cidade.

O desenho urbano da Esplanada Capixaba não foi improviso. Inspirado em referências internacionais de urbanismo do século XX, o projeto previa quadras maiores, ruas largas, continuidade viária e um novo bairro comercial, administrativo e de serviços à beira da baía. O Código Municipal de 1954 criou o chamado Bairro Comercial Especial, com regras próprias de ocupação e gabarito, pensadas para modernizar a imagem da capital e fortalecer sua relação com o porto.

Nem tudo saiu como o papel previa. A verticalização ultrapassou os limites iniciais e algumas áreas foram redesenhadas ao longo das décadas. Ainda assim, o conceito central resistiu: um eixo urbano amplo, linear e aberto para a baía. Décadas depois, esse traçado urbano se revelou perfeito para aquilo que os urbanistas dos anos 1950 jamais imaginaram: ser a grande passarela do Carnaval de rua.

Durante muito tempo, o Carnaval de Vitória se concentrou na Avenida Jerônimo Monteiro e na Praça Oito. No pós-pandemia, a migração para a Beira-Mar consolidou um novo circuito: mais largo, ventilado, com melhor escoamento de público e logística de segurança. O urbanismo que nasceu para modernizar o comércio e o porto acabou entregando, sem querer, o principal palco da cultura popular da cidade.

No fim das contas, Vitória não apenas cresceu sobre o mar. Ela aprendeu a festejar sobre ele. E a Esplanada Capixaba, criada como projeto de desenvolvimento urbano, virou um dos maiores símbolos da ocupação cultural do Centro da capital capixaba no século XXI.